
Era uma vez um leãozinho.
Esse leãozinho era o focinho chapado da felicidade.
Em tudo o que fazia ele era feliz. Era o mais feliz de entre todos os seus amigos leões. Essa felicidade fazia-o parecer mais bonito ao sol do final da tarde, que reflectia no seu pêlo dourado e brilhante.
O leãozinho conheceu uma leoa. Apaixonou-se logo. Era a leoa mais bela lá do sitio onde vivia.
A leoa aceitou o leão como seu companheiro e começou assim o seu amor.
Começaram a caçar juntos, a comer juntos, a abrigar-se da chuva juntos, cresceram juntos, só os dois. Para o bem e para o mal.
Até que um dia, muito mais tarde, o leão deu por si grande. Parecia que até ali tudo tinha passado rapidíssimo. O seu pêlo já não mais brilhava. As suas unhas e dentes estavam gastos da árdua tarefa que é subsistir. Os seus olhos estavam cansados e húmidos. O leão já não se reconhecia. E tomou consciência de que não tinha consciência do quanto mudara com o tempo. A frequência dos bons momentos havia sido substituida pela dos maus momentos.
A sua leoa continuava bonita, ainda assim, quase como se lhe tivesse sugado toda a vitalidade.
O leão procurou os seus amigos. Mas todos já tinham partido. Os que não partiram já não o reconheceram.
O leão entendeu que a vida o obrigara a mudar. Que o amor o obrigara a mudar.
Só não entendeu porque é que só ele havia mudado. Porque é que só ele estava cansado. Porque é que só ele deixou de ser feliz.
Incapaz, sequer, de ter vontade de viver, o leão não aguentou o peso de todo aquele tempo e ficou para trás. Frágil, ferido, incapaz.
Morreu para a vida, só o coração permanecia em compasso. Tudo o resto tinha acabado para o leão.
Esta é a história, já velhinha, do leãozinho.