quarta-feira, 17 de abril de 2019

Amor-Combate

Eu quero estar lá Quando tu tiveres de olhar para trás. Sempre quero ouvir Aquilo que guardaste para dizer no fim. Eu não te posso dar Aquilo que nunca tive de ti, Mas não te vou negar a visita às ruínas que deixaste em mim. Se o nosso amor é um combate, Então que ganhe a melhor parte. Se o nosso amor é um combate, o nosso amor é um combate, o nosso amor é um combate O chão que pisas sou eu. O nosso amor morreu Quem o matou fui eu. O chão que pisas sou eu. Linda Martini.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Outro dia.

Chamo-o para ir à rua. Mais um dia. Ele responde prontamente, como ontem, como antes de ontem. Exactamente da mesma forma. Vejo o calendário para me certificar de que o dia é outro. Confirmo. Mas o tempo parece ter parado num ciclo de repetição que me faz sentir assombrado. Desço a escada. Ele pára com duas patas no tapete, duas patas no chão, aguardando nervoso que lhe coloque a coleira. Quando saímos, o ar pesado inunda-me e, antes de olhar para a frente, já vejo as mesmas beatas no chão que não fogem dali há dias. Ele puxa-me com força para a frente, sempre sôfrego. E tento acalmá-lo em vão. Quando dobra a esquina, a coleira metálica bate de forma estridente no sinal de trânsito que se ergue no canto da rua. Não saio sempre à mesma hora, mas parece. Um ponto de embraiagem perfeito do Corsa vermelho, que aquela senhora faz, todos os dias, enquanto espreita para confirmar a segurança em avançar, olha-me sempre da mesma forma. Como se o olhar passasse por mim e me trespassasse como se nada fosse. Faço o mesmo numa versão pedonal antes de atravessar. Passa o electricista na carrinha e acena. Eu aceno também, quase por obrigação. O cão fica crispado de repente, sufoca de tanto puxar. Tem um inimigo igual a ele, com um portão metálico a separar, torna-se difícil avançar no meio de latidos agressivos. É assim todos os dias. Não muda nada. A cor dos dias, a expressão nas pessoas, os movimentos da rotina. E penso "Eu não sou daqui. Eu não consigo estar aqui. Estou a secar. Estou a sufocar como ele." Mas ele, na plenitude do seu instinto continua a querer fugir mesmo que todos os dias saiba que não consegue. E eu já nem disso sou capaz. Estou preso à minha apatia. Talvez por achar que não mereço mais para mim. Pelo menos ao ponto de me fazer agir. Esgota-me. Não me reconheço e tenho medo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Se Me Esqueceres

Quero que saibas uma coisa. Sabes como é: se olho a lua de cristal, o ramo vermelho do lento outono à minha janela, se toco junto do lume a impalpável cinza ou o enrugado corpo da lenha, tudo me leva para ti, como se tudo o que existe, aromas, luz, metais, fosse pequenos barcos que navegam até às tuas ilhas que me esperam. Mas agora, se pouco a pouco me deixas de amar deixarei de te amar pouco a pouco. Se de súbito me esqueceres não me procures, porque já te terei esquecido. Se julgas que é vasto e louco o vento de bandeiras que passa pela minha vida e te resolves a deixar-me na margem do coração em que tenho raízes, pensa que nesse dia, a essa hora levantarei os braços e as minhas raízes sairão em busca de outra terra. Porém se todos os dias, a toda a hora, te sentes destinada a mim com doçura implacável, se todos os dias uma flor, uma flor te sobe aos lábios à minha procura, ai meu amor, ai minha amada, em mim todo esse fogo se repete, em mim nada se apaga nem se esquece, o meu amor alimenta-se do teu amor, e enquanto viveres estará nos teus braços sem sair dos meus. Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

quinta-feira, 21 de março de 2019

Choices

Tirem-me tudo. Tirem-me os dias de Sol que adoro. Tirem-me as noites loucas e enevoadas em álcool barato. Tirem-me os cigarros que me acompanham em todas as jornadas. Tirem-me este espírito melancólico que me ajuda a escrever tralha invisível. Tirem-me o trabalho, que tanta falta faz. Tirem-me o mar e a areia que me ressuscitam. Tirem-me os sonhos que me desencaminham por terras que não são as minhas. Tirem-me os personagens que me remexem a ideia. Tirem-me os fantasmas desses mesmos personagens. Tirem-me tudo. Mas não me tirem a liberdade. Tomei a liberdade de te escolher. E preciso de ti, mesmo que me tirem tudo.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Foda-se.

Foda-se. Foda-se porque o amor verdadeiro é desconfortável como calçar um par de meias sujo, húmido e com areia, antes de correr o corta-mato num dia abafado. Foda-se porque é directo, nos faz aprender, nos vicia, e nos constrange em simultâneo. Foda-se porque não sei se me hei de queixar, se hei de ser grato. Vou fazendo um pouco dos dois, por via das dúvidas. Tenho em ti tudo o que preciso numa relação. E temo-la porque ambos queremos. Não é perfeita mas anda lá perto. Temos liberdade para poder fazer, de maneira desligada, o que quisermos. Com quem quisermos. E talvez seja mesmo por isso que eu não sinta necessidade de o fazer. Porque não sei fazê-lo dessa forma desligada, com a facilidade e a frieza com que tu o fazes e, porra, tenho uma inveja de ti por não conseguir ser igual nesse aspecto. Consigo fazê-lo de uma forma calorosa e espontânea, pela minha maneira de ser natural. As palavras e a abordagem inicial saem-me de forma tão natural e cativante, que colho exactamente aquilo que planto. Fica tão fácil apaixonar-me enquanto se apaixonam por mim, tudo isto em horas. Míseras horas. Sinto-me tentado a ir matar essa curiosidade, consumir e ser consumido por um corpo alheio, e passar mal na hora da despedida porque tenho uma gestão emocional de maturidade duvidosa, porque sou um cabrão manipulador que leva e se deixa levar por caminhos que não podem ser percorridos, não quando se usa meias sujas, húmidas e com areia num dia abafado. No fundo todos queremos, também, um amor que não seja tão sincero, ou uma paixão típica dos filmes, se lhe quisermos chamar assim. Intensa e extinta desde o início. Uma paixão com a duração de um arrepio, um acontecimento isolado e perfeito, liberto de rotinas e que nos faça não ter os pés na Terra, pois só assim é possível atingir a perfeição. Quero essa perfeição. Mas não necessito dela para ser realmente feliz, do ponto de vista socrático da busca da felicidade. Não funciona a longo prazo. Por isso, no que a mim me toca, pessoa com "coração de criança, ansiosa pela dança de quem lhe estender a mão", e simultaneamente ciente de tudo o que tenho e que amo e preciso, digo sem receios que sinto muitas vezes a falta dessa falsa verdade amorosa, inconsciente e efémera. Essa paixão que nos faz, a nós próprios e às pessoas por quem estamos dormentes de hormonas instáveis qual glicerina, sermos capazes de fazer 7500 kms para nos consumirmos sem reservas. Eu preciso de ouvir da boca daquela miúda apaixonante do Tinder - que afinal não era só um cliché de pessoa do Tinder - que me adora sem me conhecer, que eu adoro sem conhecer, que espera a minha mensagem todos os dias, que fica molhada e com o rosto rosado nos nossos episódios de sexting, que quer casar comigo a 29 de fevereiro, se os planetas se alinharem todos e durante um salto de bungee jumping, mesmo que nos caguemos todos, porque pessoas como nós não poderiam ter um casamento diferente, precisar de ver os vídeos com os sorrisos atrevidos que me manda, ouvir o riso dela, enviar-lhe as minhas canções para que me diga "És lindo. Só." Mesmo que seja uma farsa inocente e sem maldade que só o tempo desvenda. Condenada desde o primeiro olá. Só é possível usufruir dessa intensidade por um curto espaço de tempo. Não existe perfeição a longo prazo. Uma hora me bastava, na areia, ao sol, com o som do mar, a guitarra e uma máquina para guardar memórias que o tempo vai desgastando na nossa cabeça, com o passar do tempo. Uma hora contigo. As pessoas podem partilhar-se quando são apaixonantes, sem sentimento de posse envolvido. Aliás, se não fosse assim seria impossível manter-me numa relação. Que as pessoas apaixonantes se apaixonem, é normal. Mas que tenham noção da carência que vem depois. É violento. Como é violento lidar com uma relação monógama durante anos, onde se perde a magia, a comunicação, em que o casal se torna apenas a ferramenta de subsistência um do outro. Tenho a sorte de ter uma relação que não é assim. Que nos deixa sermos livres e iguais a nós próprios. Mas que também nos dá espaço para a incerteza. Só tenho receio que as escolhas que fiz e me preenchem agora percam alicerces nalgum episódio isolado que me faça viajar e não voltar. Porque os loucos assim funcionam. E de normal, não tenho nada. Percorreria descalço esse corta-mato, talvez. Não sei. Por ti e para ti. Foda-se.

sábado, 16 de junho de 2018

Premonição

Tomei como certa a minha segurança na tua liberdade. Poderia ter tomado como certa a minha liberdade na tua segurança. A conclusão passa por perder a segurança e a liberdade. Um bloqueio constante por ter dificuldade em que coração e cabeça finalizem o acordo que estabeleceram. Estou no limbo que quis para mim. Não existo mais. Nem como sombra. Não existo porque não sinto. Nada. Nada positivo ou negativo. Total ausência constante daquilo que considero ser essencial para viver. Mas vou adaptar-me. Porque vai valer a pena. Por isso sobrevivo, trazendo às costas um peso que só eu escolhi carregar, sabendo de antemão que iria crescer nestes moldes, maquinais, objectivos, pragmáticos. Não tenho a consciência de ser amado, desejado, reconhecido, importante. Porque ser e sentir que sou são coisas diferentes. E da forma que a minha percepção está, duvido de tudo. São precisas mudanças. E a conclusão dessas mudanças. Até lá sou prisioneiro de mim mesmo e faço o que qualquer prisioneiro faz. Aguardo impávido e sereno até que um pouco mais de maturidade me faça perceber que o amor é isto e que eu simplesmente estou bloqueado com a ideia porque nunca o havia sentido desta forma, com esta responsabilidade.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Escrevo, passadas inúmeras vidas, porque finalmente encontrei sentido. O sentido é sentir. E, porra, o quão me preocupa que pouca gente queira sentir. Apegamos-nos a coisas e não a seres. E valorizamos-nos, pessoas, como se valoriza um objecto. E não deveria, sequer, valorizar-se um objecto. Usamos-nos. Tocamos-nos. Fodemos-nos. Chupamos-nos. No vácuo emocional. É só físico. Desinteressante. E os loucos do mundo? Que procuram onde não se vê? Que procuram amar e ser amados? Que procuram mais do que mero instinto, aquela "cola" que nos faz sentir completos e distintos dos outros animais? Por onde andam? Podemos já ter sofrido mil vidas, mas que, por favor, nunca nos neguemos ao amor uns pelos outros. Se somos mais psicológico do que físico, não nos limitemos apenas ao físico. É o mesmo que ficar a meio da jornada. Por medo do compromisso de continuar até onde o final possa ser, ou não. Não é fácil. Mas é cheio. Absoluto. Vibrante. E não é efémero. Como homem, velho, gosto de ser o que fode, o que manda, mas gosto de ser o que beija depois, o que prepara o pequeno-almoço, o que está lá mesmo quando mostrares o pior de ti. Porque vou sempre observar-te com a mesma admiração de quem só vê e conhece o teu melhor. Porquê? Porque sei amar. E padeço de um mal de que me orgulho que é não saber dissociar a tesão do amor. Quanto mais amo e sou amado, mais desejo me habita o corpo. É mais do que sexo. Tão mais do que sexo. Li isto que partilho aqui com ninguém. Foram, provavelmente, as palavras mais certeiras que procurava exprimir e ainda não tinha encontrado. E a merda é esta: ""Quer foder comigo?" Sexo casual é o novo modelo de relacionamento. Uma mensagem, Um olhar, Algumas palavras e pronto! O sexo ganhou um novo pseudónimo; o aclamado: "foda". Então prepare o preservativo que a noite vai ser de prazer. Mas a preservação não é só por uma gravidez inesperada ou uma DST, também nos preservamos do compromisso, do apego, das cobranças e também do AMOR. É mais fácil tirar a roupa do que o sorriso. Tocar corpo do que o coração. Preferimos alguém pra comer em uma noite, a alguém que fique para comer com a gente no café da manhã. Estamos tão fragilizados com compromisso que matamos o prazer enquanto a carência nos enterra. Houve um tempo em que as pessoas faziam amor, e eram felizes. Mas hoje, elas fodem!!! E talvez por isso exista pouca gente feliz e tanta gente fodida." Marcos Bulhões