quarta-feira, 27 de março de 2019
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor,
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
quinta-feira, 21 de março de 2019
Choices
Tirem-me tudo.
Tirem-me os dias de Sol que adoro.
Tirem-me as noites loucas e enevoadas em álcool barato.
Tirem-me os cigarros que me acompanham em todas as jornadas.
Tirem-me este espírito melancólico que me ajuda a escrever tralha invisível.
Tirem-me o trabalho, que tanta falta faz.
Tirem-me o mar e a areia que me ressuscitam.
Tirem-me os sonhos que me desencaminham por terras que não são as minhas.
Tirem-me os personagens que me remexem a ideia.
Tirem-me os fantasmas desses mesmos personagens.
Tirem-me tudo.
Mas não me tirem a liberdade.
Tomei a liberdade de te escolher.
E preciso de ti, mesmo que me tirem tudo.
segunda-feira, 11 de março de 2019
Foda-se.
Foda-se.
Foda-se porque o amor verdadeiro é desconfortável como calçar um par de meias sujo, húmido e com areia, antes de correr o corta-mato num dia abafado.
Foda-se porque é directo, nos faz aprender, nos vicia, e nos constrange em simultâneo.
Foda-se porque não sei se me hei de queixar, se hei de ser grato. Vou fazendo um pouco dos dois, por via das dúvidas.
Tenho em ti tudo o que preciso numa relação. E temo-la porque ambos queremos. Não é perfeita mas anda lá perto.
Temos liberdade para poder fazer, de maneira desligada, o que quisermos. Com quem quisermos. E talvez seja mesmo por isso que eu não sinta necessidade de o fazer. Porque não sei fazê-lo dessa forma desligada, com a facilidade e a frieza com que tu o fazes e, porra, tenho uma inveja de ti por não conseguir ser igual nesse aspecto.
Consigo fazê-lo de uma forma calorosa e espontânea, pela minha maneira de ser natural. As palavras e a abordagem inicial saem-me de forma tão natural e cativante, que colho exactamente aquilo que planto. Fica tão fácil apaixonar-me enquanto se apaixonam por mim, tudo isto em horas. Míseras horas. Sinto-me tentado a ir matar essa curiosidade, consumir e ser consumido por um corpo alheio, e passar mal na hora da despedida porque tenho uma gestão emocional de maturidade duvidosa, porque sou um cabrão manipulador que leva e se deixa levar por caminhos que não podem ser percorridos, não quando se usa meias sujas, húmidas e com areia num dia abafado.
No fundo todos queremos, também, um amor que não seja tão sincero, ou uma paixão típica dos filmes, se lhe quisermos chamar assim. Intensa e extinta desde o início. Uma paixão com a duração de um arrepio, um acontecimento isolado e perfeito, liberto de rotinas e que nos faça não ter os pés na Terra, pois só assim é possível atingir a perfeição. Quero essa perfeição. Mas não necessito dela para ser realmente feliz, do ponto de vista socrático da busca da felicidade. Não funciona a longo prazo.
Por isso, no que a mim me toca, pessoa com "coração de criança, ansiosa pela dança de quem lhe estender a mão", e simultaneamente ciente de tudo o que tenho e que amo e preciso, digo sem receios que sinto muitas vezes a falta dessa falsa verdade amorosa, inconsciente e efémera. Essa paixão que nos faz, a nós próprios e às pessoas por quem estamos dormentes de hormonas instáveis qual glicerina, sermos capazes de fazer 7500 kms para nos consumirmos sem reservas. Eu preciso de ouvir da boca daquela miúda apaixonante do Tinder - que afinal não era só um cliché de pessoa do Tinder - que me adora sem me conhecer, que eu adoro sem conhecer, que espera a minha mensagem todos os dias, que fica molhada e com o rosto rosado nos nossos episódios de sexting, que quer casar comigo a 29 de fevereiro, se os planetas se alinharem todos e durante um salto de bungee jumping, mesmo que nos caguemos todos, porque pessoas como nós não poderiam ter um casamento diferente, precisar de ver os vídeos com os sorrisos atrevidos que me manda, ouvir o riso dela, enviar-lhe as minhas canções para que me diga "És lindo. Só." Mesmo que seja uma farsa inocente e sem maldade que só o tempo desvenda. Condenada desde o primeiro olá. Só é possível usufruir dessa intensidade por um curto espaço de tempo. Não existe perfeição a longo prazo. Uma hora me bastava, na areia, ao sol, com o som do mar, a guitarra e uma máquina para guardar memórias que o tempo vai desgastando na nossa cabeça, com o passar do tempo. Uma hora contigo.
As pessoas podem partilhar-se quando são apaixonantes, sem sentimento de posse envolvido. Aliás, se não fosse assim seria impossível manter-me numa relação. Que as pessoas apaixonantes se apaixonem, é normal. Mas que tenham noção da carência que vem depois. É violento. Como é violento lidar com uma relação monógama durante anos, onde se perde a magia, a comunicação, em que o casal se torna apenas a ferramenta de subsistência um do outro. Tenho a sorte de ter uma relação que não é assim. Que nos deixa sermos livres e iguais a nós próprios. Mas que também nos dá espaço para a incerteza.
Só tenho receio que as escolhas que fiz e me preenchem agora percam alicerces nalgum episódio isolado que me faça viajar e não voltar. Porque os loucos assim funcionam. E de normal, não tenho nada. Percorreria descalço esse corta-mato, talvez. Não sei. Por ti e para ti.
Foda-se.
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