quinta-feira, 11 de abril de 2019
Outro dia.
Chamo-o para ir à rua. Mais um dia. Ele responde prontamente, como ontem, como antes de ontem. Exactamente da mesma forma. Vejo o calendário para me certificar de que o dia é outro. Confirmo. Mas o tempo parece ter parado num ciclo de repetição que me faz sentir assombrado. Desço a escada. Ele pára com duas patas no tapete, duas patas no chão, aguardando nervoso que lhe coloque a coleira. Quando saímos, o ar pesado inunda-me e, antes de olhar para a frente, já vejo as mesmas beatas no chão que não fogem dali há dias. Ele puxa-me com força para a frente, sempre sôfrego. E tento acalmá-lo em vão. Quando dobra a esquina, a coleira metálica bate de forma estridente no sinal de trânsito que se ergue no canto da rua. Não saio sempre à mesma hora, mas parece. Um ponto de embraiagem perfeito do Corsa vermelho, que aquela senhora faz, todos os dias, enquanto espreita para confirmar a segurança em avançar, olha-me sempre da mesma forma. Como se o olhar passasse por mim e me trespassasse como se nada fosse. Faço o mesmo numa versão pedonal antes de atravessar. Passa o electricista na carrinha e acena. Eu aceno também, quase por obrigação. O cão fica crispado de repente, sufoca de tanto puxar. Tem um inimigo igual a ele, com um portão metálico a separar, torna-se difícil avançar no meio de latidos agressivos. É assim todos os dias. Não muda nada. A cor dos dias, a expressão nas pessoas, os movimentos da rotina. E penso "Eu não sou daqui. Eu não consigo estar aqui. Estou a secar. Estou a sufocar como ele." Mas ele, na plenitude do seu instinto continua a querer fugir mesmo que todos os dias saiba que não consegue. E eu já nem disso sou capaz. Estou preso à minha apatia. Talvez por achar que não mereço mais para mim. Pelo menos ao ponto de me fazer agir. Esgota-me. Não me reconheço e tenho medo.
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